Sugeri que tocassem Arnaldo Antunes no funeral. O título da música era sugestivo, O buraco. “A morrer ninguém foi ensinado”, diz a letra. “E todos morrerão.” A música conseguia sintetizar ao mesmo tempo o conteúdo cômico e trágico daquelas mortes. Com voz grave e divertida do Arnaldo Antunes, então, ia ficar perfeito. Claro que ninguém me deu ouvidos e não houve música no enterro dos amigos.
As pessoas continuam a morrer todos os dias e a vida prossegue besta.
De minha parte, resolvi me consolar com o que tenho, bem pouco. Vou concluir essas anotações, em seguida fazer anúncio no jornal procurando vaga de barbeiro. Larguei a mecânica de carros, não sou bom nessa atividade, como os últimos eventos deixaram claro. O que era para ser susto pode se transformar em algo bem maior. Barbearia é um bom negócio, além de bastante seguro. Barbearia é o jeito de começar a esquecer os mortos, até que eu siga o caminho de todo mundo e também seja esquecido.
FIM
FIM
