3.12.09

160. Mas não se toca música?

Sugeri que tocassem Arnaldo Antunes no funeral. O título da música era sugestivo, O buraco. “A morrer ninguém foi ensinado”, diz a letra. “E todos morrerão.” A música conseguia sintetizar ao mesmo tempo o conteúdo cômico e trágico daquelas mortes. Com voz grave e divertida do Arnaldo Antunes, então, ia ficar perfeito. Claro que ninguém me deu ouvidos e não houve música no enterro dos amigos.
As pessoas continuam a morrer todos os dias e a vida prossegue besta.
De minha parte, resolvi me consolar com o que tenho, bem pouco. Vou concluir essas anotações, em seguida fazer anúncio no jornal procurando vaga de barbeiro. Larguei a mecânica de carros, não sou bom nessa atividade, como os últimos eventos deixaram claro. O que era para ser susto pode se transformar em algo bem maior. Barbearia é um bom negócio, além de bastante seguro. Barbearia é o jeito de começar a esquecer os mortos, até que eu siga o caminho de todo mundo e  também seja esquecido. 


FIM

159. Comédia ou tragédia é na régua

O cômico e o trágico são faces da mesma moeda, chamada destino. Tem alguém que empurra sua moeda para frente. Se é Deus, sua vida será marcada pela tragédia. Se o Diabo, pela comédia, embora haja polêmica também nesse campo. Ela cair com um lado ou outro para cima é o esforço que você deve fazer a vida toda, mesmo sabendo que não está no controle.
Claro, a maioria das pessoas vai preferir que a comédia caia com a face voltada para cima. Mas não é assim tão simples. Historiadores, romancistas e dramaturgos são obrigados a observar moedas alheias a vida toda, ou seja, observar o lado a e o lado b e esse vai-não-vai é o que certamente lhes torna a vida mais interessante, senão mais divertida.
Tenho dificuldades em resolver qual dos dois caminhos os meus amigos tomaram. Sou obrigado a delegar a você, leitora, leitor, a decisão e tenho certeza que você usará o mesmo mecanismo que eu normalmente utilizo, ou seja, medirá o mundo com sua régua pessoal.
Quando você se torna sua própria régua para medir o mundo é porque chegou no estágio da sabedoria. Procurei me afastar dos satiristas com a mesma veemência com que me afasto dos crédulos. Minha régua só serve para minha medida, é uma régua exclusivista. Alguns me tomam por arrogante, outros por estúpido, mas nenhum dos rótulos me parece justo o bastante. Cheguei a essa conclusão que parece óbvia demais, mas que não vou deixar de dizer mesmo assim: régua, lupa ou termômetro, no fundo o que realmente importa é ter instrumentos para medir o mundo. 

158. Sorriso da morte

Quando a polícia e os bombeiros chegaram ao local do acidente, os rostos mortos de Emerson, Elisa, Nelson e Clara esboçavam um sorriso. Sempre dá tempo de mudar o rosto, antes do impacto provocador da morte. Talvez seja sinal claro de que mesmo diante da morte, resolveram permanecer felizes — um tanto bizarro —, além de dar a impressão de que há alguém no controle de todas as ironias, sarcasmos e sátiras em escala planetária.
No fundo, a preferência desse controlador, vou chamar assim, é pelo escárnio. As vítimas somos todos nós, sem dúvida, os que ficamos vivos para ver tudo. 

157. Lado B

Os quatro entraram no carro naquela noite cheios de alegria por terem finalmente decidido que não valia a pena brigar, que deviam ser amigos e se entender. Havia alguma coisa nos astros, na água, no champanhe que Clara resolveu servir a todos antes que fossem sair para levar Emerson e Elisa em casa e depois fossem, Clara e Nelson, para o apartamento desse último, passar a noite. Havia alguma coisa que suscitava felicidade e bem-estar, uma compreensão de que, por mais estúpida e sem sentido que a vida seja, ou talvez por isso mesmo, o melhor a se fazer no final das contas é sorrir e procurar ser feliz.
Os quatro estavam felizes quando dirigiam pelas ruas compridas e sinuosas do Lago Norte. Alguém, talvez Emerson, contou uma piada que fez todos rirem e talvez Nelson, que estava ao volante, se distraiu por um momento, o suficiente para não ver aquele carro que entrou no retorno e o obrigou a fazer a manobra abrupta. Estavam em alta velocidade e o impacto com a árvore os matou a todos. 

156. Lado A

Os quatro entraram no carro naquela noite cheios de fúria, a cabeça ainda quente, a discussão inconclusa. Quando todos querem, a briga é feia. A raiva é o motor de muitas decisões humanas, não o melhor motor, mas certamente bastante potente. Para Clara, por exemplo, era catalisador e motivo para sair da cama de manhã.
No meu entender, deveriam ter discutido tudo antes de sair de casa. Encerrariam a discussão primeiro e só então entrariam no carro, quando os ânimos estivessem calmos. Isso provocou o pior, não terem respeitado esse preceito. Porque ainda discutiam, sem se entender, ainda batiam boca, ainda soltavam vitupérios e acusações uns contra os outros.
Foi movida pelo sentimento de raiva irresoluta que Clara meteu a mão no volante do carro, dirigido por Nelson, e o puxou em sua direção, fazendo o carro se desgovernar em direção a uma árvore, levando-os todos a uma morte que os peritos disseram que foi relativamente rápida e indolor.
À tragédia da perda dos quatro amigos acrescente-se o tom indiferente do perito que pronunciou o advérbio relativamente. Quis dar um soco no nariz dele. Mas alguns amigos me contiveram, para sorte do nariz do perito. 

2.12.09

155. Especulações

Como não se pode saber exatamente o que aconteceu entre os quatro naquele momento em que conversavam dentro do carro, indo para casa, resta aos que ficamos vivos especular. Com os amigos que ficaram vivos, concluí entre outras coisas que Emerson, Elisa, Nelson e Clara poderiam nem estar conversando no momento do acidente.
Talvez estivessem distraídos, cada um mergulhado no mundo interno das reflexões. Como ocorre naqueles momentos em que ninguém conversa, em que o movimento do carro é estimulante para o mergulho nos próprios pensamentos e qualquer palavra vem apenas atrapalhar.
Duas tendências para explicar o acidente começaram a tomar forma na minha cabeça. Uma aponta para a versão trágica. Outra, para a versão cômica. Chamei-as lado A e lado B. Acho melhor tratá-las em capítulos separados. 

154. Mecânica nada celeste

Tive algumas aulas de mecânica de carros. Não sei, comecei a ter ideias. Talvez mudar de ramo, antes mesmo de ter começado a montar o negócio da barbearia. Algo que também pudesse aproveitar meu talento natural com as mãos.
Gostei particularmente das aulas que me ensinaram a controlar os freios de um carro. Estudamos variantes de diversos modelos de carro. Impressionante como um pequeno ajuste fora do lugar pode ter efeitos enormes no resultado e no desempenho. O óleo do freio... mas creio que o leitor talvez não seja exatamente fã do assunto. Melhor deixar para lá o assunto e as ideias novas que foram me ocorrendo a partir dessas aulas. 

 
© Copyright 2008 - DESABUSADO